Transtorno do desenvolvimento dos sons da fala
Developmental speech sound disorder
CategoriaDefinição
O transtorno do desenvolvimento dos sons da fala é caracterizado por dificuldades na aquisição, produção e percepção da fala, que resultam em erros de pronúncia, seja em número ou tipos de erros de fala cometidos, ou na qualidade geral da produção da fala, que estejam fora dos limites normais de variação esperados para a idade e o nível de funcionamento intelectual, e resultam em inteligibilidade reduzida, e afetam significativamente a comunicação. Os erros na pronúncia surgem durante o período precoce do desenvolvimento, e não podem ser explicados por variações sociais, culturais, e outras do ambiente (p. ex., dialetos regionais). Os erros de fala não são completamente explicados por uma deficiência auditiva ou por uma anormalidade estrutural ou neurológica.
Critérios Diagnósticos
Características Essenciais (Obrigatórias):
- Erros persistentes de pronúncia, articulação ou fonologia (isto é, como os sons baseados na linguagem são combinados na fala típica da cultura) que se manifestam como erros de sons da fala típicos do desenvolvimento que persistem substancialmente além da idade esperada ou como erros de sons da fala atípicos para a língua falada (por exemplo, deleção de consoante inicial de palavra em crianças falantes de inglês).
- O início das dificuldades de sons da fala ocorre durante o período inicial do desenvolvimento.
- As dificuldades de sons da fala resultam em limitações significativas na capacidade de comunicação devido à inteligibilidade reduzida da fala.
- Os erros da fala não são melhor explicados por uma Doença do Sistema Nervoso que afeta o cérebro, nervos periféricos ou neuromusculatura (por exemplo, paralisia cerebral, miastenia gravis), deficiência sensorial (por exemplo, surdez neurossensorial) ou anormalidade estrutural (por exemplo, fenda palatina) ou outra condição médica.
Características Clínicas Adicionais:
- Crianças com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala podem apresentar atrasos na aquisição, produção e percepção da linguagem falada.
- Os erros fonológicos de sons da fala podem ser consistentes ou inconsistentes. Frequentemente envolvem classes de sons (por exemplo, produzir incorretamente sons da mesma maneira), local de articulação diferente, ou mudanças na estrutura silábica (por exemplo, deleção de consoantes finais ou redução de grupos consonantais para consoantes simples).
- Se os erros da fala são produzidos consistentemente, ouvintes familiares podem ser capazes de se acomodar e decodificar a fala. No entanto, quando a velocidade da fala aumenta, mesmo ouvintes familiares podem não conseguir entender o indivíduo.
- O Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala pode estar associado com imprecisão e inconsistência dos movimentos orais necessários para a fala, especialmente em crianças pequenas (também chamado de apraxia da infância ou dispraxia da fala), resultando em dificuldade para produzir sequências de sons da fala, consoantes e vogais específicas, e prosódia apropriada (entonação e ritmo da fala). Pode haver alguma disfunção oral-motora associada afetando alimentação precoce, sucção e mastigação, sopro e imitação de movimentos orais e sons da fala, mas não com a fraqueza, lentidão ou incoordenação encontradas na Disartria.
- O Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala comumente co-ocorre com outros Transtornos do Neurodesenvolvimento, como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno do Desenvolvimento da Fluência da Fala e Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem.
Fronteira com a Normalidade (Limiar):
- As crianças variam amplamente na sequência e idade em que adquirem sons da fala. Tal variação normal não reflete a presença do Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala. Em contraste, crianças com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala exibem problemas persistentes que causam limitações significativas na capacidade de comunicação devido à inteligibilidade reduzida da fala. Até a idade de 4 anos, vários erros de sons da fala são comuns entre crianças com aquisição de sons da fala tipicamente em desenvolvimento, mas a comunicação permanece relativamente intacta apesar desses erros em relação a pares da mesma idade.
Características do Curso:
- Muitas crianças pequenas com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala experimentam remissão na idade escolar. Entre crianças pequenas diagnosticadas na primeira infância, até 50 – 70% exibirão dificuldades acadêmicas durante toda sua escolarização, mesmo se as próprias dificuldades de sons da fala tenham remitido.
- Comparadas com crianças e adolescentes com diagnóstico único de Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala, aquelas com Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem co-ocorrente são mais propensas a desenvolver outros Transtornos Mentais, Comportamentais ou do Neurodesenvolvimento, como Transtornos de Ansiedade ou Relacionados ao Medo ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Elas também exibem maiores dificuldades acadêmicas, sociais e adaptativas no final da infância e adolescência.
Apresentações do Desenvolvimento:
- As taxas de prevalência variam mas geralmente diminuem com a idade, de tal forma que a prevalência pode ser tão alta quanto 16% aos três ou quatro anos, aproximadamente 4% aos seis anos, e 3,6% aos oito anos. Portanto, muitas crianças pré-escolares diagnosticadas com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala exibem desenvolvimento típico de sons da fala no momento em que começam a escola.
- Algumas crianças com sintomas de Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala no início da vida podem apenas experimentar interferência com o funcionamento quando ingressam na escola, quando as demandas do ambiente de aprendizagem excedem suas capacidades atuais.
- A co-ocorrência de outros Transtornos do Neurodesenvolvimento é mais provável entre crianças com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala persistente (cujos erros de sons da fala continuam além dos oito ou nove anos). Em particular, essas crianças são mais propensas a desenvolver deficiências de linguagem e dificuldades de leitura, e tendem a experimentar piores resultados.
Características Relacionadas ao Sexo e/ou Gênero:
- O Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala é mais comum em meninos, especialmente em idades mais jovens. Dificuldades precoces da fala em meninas parecem mais propensas a se resolver na idade escolar. As diferenças de gênero diminuem com a idade; a proporção de meninos afetados comparados às meninas parece ser de 2:1 ou 3:1 na primeira infância e diminuir para 1,2:1 aos 6 anos.
- Meninos são mais propensos a experimentar deficiências de linguagem co-ocorrentes.
Fronteiras com Outros Transtornos e Condições (Diagnóstico Diferencial):
- Fronteira com Transtornos do Desenvolvimento Intelectual: Indivíduos com Transtorno do Desenvolvimento Intelectual podem exibir produção de fala prejudicada. No entanto, indivíduos com Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala tipicamente não têm também limitações significativas no funcionamento intelectual e comportamento adaptativo. Se as dificuldades de produção da fala requerem atenção clínica separada no contexto de um Transtorno do Desenvolvimento Intelectual, um diagnóstico adicional de Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala pode ser atribuído.
- Fronteira com Transtorno do Desenvolvimento da Fluência da Fala e Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem: Como o Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala, o Transtorno do Desenvolvimento da Fluência da Fala e o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem podem resultar em inteligibilidade reduzida que afeta significativamente a comunicação. O Transtorno do Desenvolvimento da Fluência da Fala é caracterizado por interrupção do fluxo rítmico normal e velocidade da fala. O Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem é caracterizado por dificuldades persistentes na aquisição, compreensão, produção ou uso da linguagem. Em contraste, o Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala é caracterizado por erros de pronúncia que estão fora dos limites da variação normal para idade cronológica ou do desenvolvimento.
- Fronteira com Mutismo Seletivo: O Mutismo Seletivo é caracterizado por seletividade consistente na fala, de tal forma que uma criança demonstra produção adequada da fala em situações específicas, tipicamente em casa, mas previsivelmente falha em falar em outras, tipicamente na escola. O Mutismo Seletivo pode ocorrer na presença do Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala, e ambos os diagnósticos podem ser atribuídos se justificado.
- Fronteira com Disfonia: A Disfonia é caracterizada por produção anormal da voz ou ausências de qualidade vocal, altura, intensidade, ressonância ou duração. Pode ser causada por tensão ou uso excessivo da voz, por anomalias estruturais laríngeas ou por Doenças do Sistema Nervoso. Pode resultar na distorção de sons da fala devido à qualidade anormal da voz. Em contraste, o Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala envolve a omissão ou substituição de sons da fala e também inclui distorção de sons da fala (por exemplo, devido ao posicionamento incorreto da língua) em vez da qualidade anormal da voz característica da Disfonia.
- Fronteira com Disartria: A Disartria é um transtorno motor da fala diretamente atribuível a uma Doença do Sistema Nervoso ou a lesão cerebral congênita ou adquirida. A Disartria é caracterizada por dificuldades com amplitude, velocidade, força, coordenação e sustentabilidade de movimentos em todo o trato vocal (isto é, tronco, laringe, palato, língua, lábios, maxilar e face) que são necessários para a fala. Essas dificuldades motoras frequentemente também causam dificuldades francas em comer, beber, engolir ou controle da saliva. Um diagnóstico de Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala não deve ser atribuído nesses casos. Em vez disso, um diagnóstico de Síndrome Secundária da Fala ou Linguagem deve ser atribuído em adição à condição médica associada se as dificuldades de sons da fala são foco específico de atenção clínica.
- Fronteira com Síndrome Secundária da Fala ou Linguagem: O diagnóstico de Transtorno do Desenvolvimento de Sons da Fala não deve ser atribuído na presença de uma Doença do Sistema Nervoso afetando o cérebro, nervos periféricos ou neuromusculatura (por exemplo, paralisia cerebral, miastenia gravis), deficiência sensorial (por exemplo, surdez neurossensorial) ou deficiência estrutural (por exemplo, fenda palatina), embora dificuldades de produção de sons da fala possam ser uma característica de apresentação de qualquer uma dessas condições. Nesses casos, um diagnóstico de Síndrome Secundária da Fala ou Linguagem deve ser atribuído em adição à condição médica associada se as dificuldades de sons da fala são foco específico de atenção clínica.
Exclusões
- Surdez sem outra especificação
- Doenças do sistema nervoso
- Disartria
- Apraxia verbal
Inclusões
- Transtorno funcional da articulação da fala