Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona

Transtornos Devidos ao Uso de Estimulantes, Incluindo Anfetaminas, Metanfetamina ou Metcatinona (CID-11: 6C46) 1. Introdução Os transtornos devidos ao uso de estimulantes representam um desafio

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Transtornos Devidos ao Uso de Estimulantes, Incluindo Anfetaminas, Metanfetamina ou Metcatinona (CID-11: 6C46)

1. Introdução

Os transtornos devidos ao uso de estimulantes representam um desafio significativo para a saúde pública global, afetando milhões de pessoas em diferentes contextos socioeconômicos e culturais. Este grupo de condições abrange problemas relacionados ao uso de substâncias psicoestimulantes sintéticas, incluindo anfetaminas, metanfetamina, metcatinona e estimulantes prescritos como dexanfetamina.

A importância clínica destes transtornos reside em suas consequências devastadoras para a saúde física, mental e social dos indivíduos afetados. Estas substâncias possuem propriedades altamente geradoras de dependência e podem causar alterações neurobiológicas significativas, levando a padrões de uso compulsivo e perda de controle. Os efeitos vasoconstritores destas drogas também contribuem para complicações cardiovasculares graves, incluindo hipertensão, arritmias cardíacas, acidentes vasculares cerebrais e infartos do miocárdio.

O impacto na saúde pública é substancial, com crescente prevalência do uso de metanfetamina em diversas regiões do mundo. Os custos associados incluem não apenas tratamento médico e psiquiátrico, mas também consequências sociais como desemprego, criminalidade, desintegração familiar e sobrecarga dos sistemas de saúde e justiça.

A codificação correta utilizando o CID-11 é crítica para múltiplos propósitos: permite o monitoramento epidemiológico adequado, facilita a alocação de recursos para tratamento, auxilia na pesquisa científica, garante o reembolso apropriado pelos sistemas de saúde e possibilita a comparação internacional de dados. A precisão diagnóstica também é fundamental para o planejamento terapêutico individualizado e para o acompanhamento longitudinal dos pacientes.

2. Código CID-11 Correto

Código: 6C46

Descrição: Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona

Categoria pai: Transtornos decorrentes do uso de substâncias

Definição oficial: Transtornos decorrentes do uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona são caracterizados pelo padrão e consequências do uso dessas substâncias. Além da cocaína, há uma ampla gama de psicoestimulantes na natureza ou produzidos sinteticamente. As mais numerosas desse grupo são substâncias do tipo anfetamina, incluindo a metanfetamina. Estimulantes prescritos, incluindo a dexanfetamina são indicados para um número limitado de condições, como o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. A metcatinona, conhecida em muitos países como efedrona, é um estimulante sintético potente que é estruturalmente análoga à metanfetamina e está relacionada à catinona. Todas essas drogas têm, primariamente, propriedades psicoestimulantes, e são também vasoconstritoras em graus variáveis. Elas induzem euforia e hiperatividade, como podem ser vistas na intoxicação por estimulantes. Têm propriedades geradoras de dependência potentes, o que pode levar ao diagnóstico de dependência de estimulantes e abstinência de estimulantes após a cessação do uso.

Este código é parte fundamental do sistema de classificação da CID-11 para transtornos relacionados a substâncias, permitindo especificidade diagnóstica e diferenciação de outros estimulantes como cocaína, catinonas sintéticas e cafeína.

3. Quando Usar Este Código

O código 6C46 deve ser utilizado em cenários clínicos específicos onde há evidência clara de transtornos relacionados ao uso de estimulantes do tipo anfetamina. A seguir, situações práticas detalhadas:

Cenário 1: Dependência de Metanfetamina com Comprometimento Funcional Paciente com história de uso diário de metanfetamina por via fumada durante os últimos 18 meses, apresentando incapacidade de interromper o uso apesar de múltiplas tentativas, negligência de responsabilidades profissionais resultando em perda de emprego, deterioração de relacionamentos familiares e surgimento de sintomas psicóticos paranoides. O paciente relata forte compulsão pelo uso e sintomas de abstinência quando tenta parar.

Cenário 2: Intoxicação Aguda por Anfetaminas com Complicações Médicas Indivíduo admitido em serviço de emergência com agitação psicomotora intensa, taquicardia, hipertensão grave, midríase e comportamento agressivo após ingestão de grande quantidade de anfetaminas. Apresenta hipertermia e risco de complicações cardiovasculares. O diagnóstico de intoxicação por estimulantes é confirmado por exames toxicológicos.

Cenário 3: Transtorno Psicótico Induzido por Metanfetamina Paciente com uso prolongado de metanfetamina desenvolvendo quadro psicótico caracterizado por alucinações auditivas e visuais, delírios persecutórios e comportamento desorganizado. Os sintomas surgiram durante o período de uso intenso e persistem após a intoxicação aguda, requerendo intervenção psiquiátrica específica.

Cenário 4: Uso Problemático de Estimulantes Prescritos Paciente inicialmente prescrito com dexanfetamina para tratamento de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade que progressivamente aumentou as doses sem orientação médica, passou a obter a medicação por meios ilícitos e desenvolveu padrão de uso compulsivo com prejuízo significativo no funcionamento diário.

Cenário 5: Síndrome de Abstinência de Estimulantes Indivíduo com história de uso crônico de anfetaminas que, após cessação abrupta, apresenta fadiga extrema, hipersonia, aumento do apetite, humor deprimido, anedonia e fissura intensa pela substância. Os sintomas interferem significativamente nas atividades cotidianas e aumentam o risco de recaída.

Cenário 6: Uso de Metcatinona com Padrão de Dependência Paciente usuário regular de metcatinona (efedrona) por via intravenosa, apresentando tolerância marcada (necessidade de doses progressivamente maiores), sintomas de abstinência quando não usa, priorização do uso da substância em detrimento de outras atividades e persistência do uso apesar de complicações infecciosas relacionadas à via de administração.

4. Quando NÃO Usar Este Código

É fundamental distinguir situações onde o código 6C46 não é apropriado, evitando confusões diagnósticas:

Exclusão 1: Transtornos devidos ao uso de catinonas sintéticas (Código 1605818663) As catinonas sintéticas, também conhecidas como "sais de banho", são substâncias quimicamente distintas que, embora compartilhem propriedades estimulantes, possuem estrutura molecular diferente e perfil de efeitos específico. Exemplos incluem mefedrona, metilona e MDPV. Quando o transtorno está relacionado especificamente a estas substâncias, o código apropriado é 1605818663, não 6C46.

Exclusão 2: Transtornos devidos ao uso de cafeína (Código 31898480) Apesar da cafeína ser tecnicamente um estimulante, os transtornos relacionados ao seu uso são codificados separadamente devido à sua disponibilidade legal universal, menor potencial de dependência e perfil de riscos substancialmente diferente. Problemas relacionados ao consumo excessivo de café, chá, bebidas energéticas ou suplementos com cafeína devem utilizar o código 31898480.

Exclusão 3: Transtornos devidos ao uso de cocaína (Código 1689089786) A cocaína, embora seja um potente estimulante, possui código específico próprio. A diferenciação é importante devido às particularidades farmacocinéticas, padrões de uso, complicações médicas específicas e abordagens terapêuticas distintas. Transtornos relacionados ao crack ou cocaína em pó devem ser codificados como 1689089786.

Exclusão 4: Uso perigoso de estimulantes incluindo anfetaminas ou metanfetamina (Código 154205648) Este código é reservado para situações onde há uso que representa risco à saúde, mas ainda não preenche critérios completos para dependência ou outros transtornos mais graves. Representa um estágio anterior no espectro de problemas relacionados ao uso de substâncias.

Outras situações de exclusão:

  • Transtornos psicóticos primários não relacionados ao uso de substâncias
  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade tratado adequadamente com estimulantes prescritos sem desenvolvimento de uso problemático
  • Intoxicação única sem padrão de uso problemático estabelecido

5. Passo a Passo da Codificação

Passo 1: Avaliar Critérios Diagnósticos

A confirmação diagnóstica requer avaliação sistemática e abrangente. Inicie com história clínica detalhada, incluindo padrão de uso (frequência, quantidade, via de administração, duração), tentativas prévias de cessação, consequências físicas, psicológicas e sociais do uso.

Instrumentos padronizados podem auxiliar na avaliação, como questionários estruturados para identificação de dependência química. A entrevista deve explorar presença de compulsão, perda de controle, tolerância, sintomas de abstinência, negligência de atividades importantes e persistência do uso apesar de consequências negativas.

Exames complementares incluem toxicologia urinária para confirmação da substância utilizada, avaliação cardiovascular (eletrocardiograma, monitorização de pressão arterial), exames laboratoriais para avaliar função hepática, renal e metabólica, e avaliação neuropsiquiátrica para identificar comorbidades.

Passo 2: Verificar Especificadores

A CID-11 permite especificação de diferentes apresentações clínicas dentro do código 6C46. Identifique se o caso representa episódio único de intoxicação, uso nocivo, dependência estabelecida ou transtorno mental induzido por estimulantes.

Avalie a gravidade considerando frequência de uso, quantidade consumida, grau de comprometimento funcional e presença de complicações médicas ou psiquiátricas. Documente o estado atual: uso ativo, remissão precoce (menos de 12 meses sem uso problemático) ou remissão sustentada (mais de 12 meses).

Identifique características específicas como presença de sintomas psicóticos, alterações de humor, ansiedade ou sintomas cognitivos induzidos pela substância. Estas especificações são relevantes para planejamento terapêutico.

Passo 3: Diferenciar de Outros Códigos

6C40: Transtornos devidos ao uso de álcool A diferença fundamental está na substância utilizada e no perfil de efeitos. Álcool é depressor do sistema nervoso central, enquanto estimulantes causam ativação. Pacientes com uso de álcool apresentam sedação, incoordenação motora e sintomas de abstinência caracterizados por tremores e risco de convulsões, distintos da apresentação de estimulantes.

6C41: Transtornos devidos ao uso de cannabis Cannabis produz efeitos psicoativos distintos, incluindo relaxamento, alteração da percepção temporal e aumento do apetite. Não causa a ativação simpática intensa característica dos estimulantes. A síndrome de abstinência de cannabis é mais branda e qualitativamente diferente.

6C42: Transtornos devidos ao uso de canabinoides sintéticos Embora sejam substâncias sintéticas, os canabinoides artificiais atuam nos receptores canabinoides, não possuindo propriedades estimulantes primárias. Seus efeitos são mais similares à cannabis natural, porém frequentemente mais intensos e imprevisíveis.

Passo 4: Documentação Necessária

Checklist de informações obrigatórias:

  • Identificação da substância específica (anfetamina, metanfetamina, metcatinona, estimulante prescrito)
  • Via de administração (oral, intranasal, intravenosa, fumada)
  • Padrão temporal de uso (duração, frequência, quantidade)
  • Presença de critérios de dependência
  • Tentativas prévias de cessação e resultados
  • Complicações médicas identificadas
  • Comorbidades psiquiátricas
  • Impacto funcional (ocupacional, social, familiar)
  • Tratamentos prévios e resposta
  • Exames complementares realizados
  • Avaliação de risco atual

O registro deve ser objetivo, utilizando terminologia padronizada, permitindo que outros profissionais compreendam claramente o quadro clínico e as razões para a codificação escolhida.

6. Exemplo Prático Completo

Caso Clínico:

Paciente de 32 anos, sexo masculino, apresenta-se ao serviço de saúde mental encaminhado por médico generalista devido a comportamento errático e relato de uso de substâncias. Durante a avaliação inicial, o paciente revela uso de metanfetamina cristalizada ("crystal meth") por via fumada nos últimos 24 meses.

O padrão de uso iniciou de forma recreativa em contexto social, progredindo para uso diário nos últimos 8 meses. Atualmente, utiliza a substância 4-6 vezes ao dia, permanecendo acordado por períodos de 3-4 dias consecutivos, seguidos de períodos de sono prolongado. Relata necessidade de quantidades progressivamente maiores para obter os efeitos desejados (tolerância).

Realizou três tentativas de interrupção nos últimos 6 meses, todas malsucedidas devido a sintomas intensos de fadiga, depressão, fissura intensa e pensamentos suicidas transitórios. Durante o uso, sente-se energizado, confiante e produtivo, mas reconhece deterioração significativa em múltiplas áreas da vida.

Perdeu emprego há 4 meses devido a faltas frequentes e baixo desempenho. Relacionamento conjugal está severamente comprometido, com a esposa considerando separação. Vendeu pertences pessoais para financiar o uso. Apresentou dois episódios de dor torácica que atribuiu ao uso, mas não procurou atendimento médico.

No último mês, desenvolveu sintomas paranoides, acreditando estar sendo perseguido e vigiado, verificando repetidamente portas e janelas. Relata também alucinações visuais de insetos rastejando sob a pele, resultando em lesões autoinfligidas por tentativas de removê-los.

Ao exame físico: emagrecimento evidente (perda de 12 kg em 6 meses), má higiene dental com múltiplas cáries, lesões cutâneas em diferentes estágios de cicatrização nos braços e face, taquicardia (110 bpm), pressão arterial elevada (150/95 mmHg), midríase, agitação psicomotora leve.

Codificação Passo a Passo:

Análise dos Critérios:

  1. Substância identificada: Metanfetamina, claramente enquadrada no código 6C46
  2. Padrão de uso problemático: Uso diário, progressivo, com perda de controle
  3. Dependência estabelecida: Presença de tolerância, sintomas de abstinência, compulsão, tentativas fracassadas de cessação
  4. Comprometimento funcional significativo: Perda de emprego, problemas conjugais, negligência de responsabilidades
  5. Complicações médicas: Cardiovasculares, dentárias, dermatológicas
  6. Transtorno mental induzido: Sintomas psicóticos (delírios paranoides, alucinações táteis e visuais) claramente relacionados ao uso de metanfetamina

Código Escolhido: 6C46 - Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona

Justificativa Completa:

O código 6C46 é apropriado porque o paciente apresenta transtorno por uso de metanfetamina com múltiplos critérios de dependência. A substância utilizada (metanfetamina) está explicitamente incluída na definição deste código. O padrão de uso crônico, com duração superior a 12 meses e uso diário nos últimos 8 meses, caracteriza uso persistente.

A presença de tolerância (necessidade de doses maiores), sintomas de abstinência quando tenta parar (fadiga, depressão, fissura), compulsão pelo uso e persistência apesar de consequências graves satisfazem critérios de dependência. O comprometimento funcional é evidente nas esferas ocupacional, familiar e social.

Adicionalmente, o paciente desenvolveu transtorno psicótico induzido por estimulantes, caracterizado por delírios paranoides e alucinações, que é uma das apresentações específicas contempladas dentro do código 6C46.

Códigos Complementares:

Dependendo do sistema de codificação utilizado, pode ser apropriado adicionar códigos para:

  • Complicações cardiovasculares específicas identificadas
  • Transtorno psicótico induzido por estimulantes (se o sistema permitir codificação dupla para especificar esta apresentação)
  • Problemas relacionados ao emprego e desemprego
  • Problemas de relacionamento conjugal

7. Códigos Relacionados e Diferenciação

Dentro da Mesma Categoria:

6C40: Transtornos devidos ao uso de álcool

Quando usar vs. 6C46: Utilize 6C40 quando a substância problemática for álcool, independentemente de uso concomitante de estimulantes. Se há uso problemático de ambas as substâncias, ambos os códigos podem ser aplicados.

Diferença principal: Álcool é depressor do sistema nervoso central, causando sedação, desinibição e comprometimento cognitivo agudo. Estimulantes causam ativação, euforia e hipervigilância. A síndrome de abstinência alcoólica pode ser fatal (delirium tremens, convulsões), enquanto a abstinência de estimulantes, embora intensa, não apresenta risco vital direto.

6C41: Transtornos devidos ao uso de cannabis

Quando usar vs. 6C46: Aplique 6C41 quando o transtorno está relacionado ao uso de cannabis natural. Muitos usuários de estimulantes também usam cannabis para "amenizar" os efeitos estimulantes ou facilitar o sono, mas a codificação deve refletir qual substância está causando o transtorno principal.

Diferença principal: Cannabis produz relaxamento, alteração da percepção sensorial, aumento do apetite e sedação em doses maiores. Não causa a ativação simpática, vasoconstrição e potencial de sintomas psicóticos paranoides tão frequentes quanto estimulantes. O perfil de riscos cardiovasculares é substancialmente diferente.

6C42: Transtornos devidos ao uso de canabinoides sintéticos

Quando usar vs. 6C46: Use 6C42 para transtornos relacionados a canabinoides sintéticos (como JWH-018, K2, Spice). Embora sejam substâncias sintéticas, seu mecanismo de ação é através de receptores canabinoides, não propriedades estimulantes.

Diferença principal: Canabinoides sintéticos atuam nos mesmos receptores que cannabis natural, mas com potência frequentemente muito maior e efeitos imprevisíveis. Não possuem as propriedades estimulantes primárias das anfetaminas, não causam ativação simpática sustentada nem os mesmos padrões de comportamento compulsivo observados com estimulantes.

Diagnósticos Diferenciais:

Transtornos psicóticos primários: Esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo podem apresentar sintomas similares aos psicóticos induzidos por estimulantes. A diferenciação baseia-se na relação temporal clara com o uso da substância e na resolução dos sintomas com abstinência prolongada (geralmente dias a semanas).

Transtorno bipolar: Episódios maníacos podem mimetizar intoxicação por estimulantes. A história longitudinal, presença de episódios depressivos e ausência de uso de substâncias durante episódios prévios ajudam na diferenciação.

Transtorno de ansiedade: Ansiedade intensa pode ocorrer tanto como transtorno primário quanto induzida por estimulantes. A cronologia é fundamental: sintomas que surgem ou pioram significativamente durante o uso e melhoram com abstinência sugerem relação causal.

8. Diferenças com CID-10

Na CID-10, os transtornos por uso de estimulantes eram codificados principalmente sob F15 (Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de outros estimulantes, incluindo cafeína), com subdivisões como F15.2 para síndrome de dependência e F15.5 para transtorno psicótico.

Principais mudanças na CID-11:

A CID-11 introduz maior especificidade e clareza conceitual. O código 6C46 separa explicitamente estimulantes do tipo anfetamina de outros estimulantes como cocaína (que possui código próprio) e cafeína (também separada). Esta distinção reconhece diferenças farmacológicas, epidemiológicas e clínicas importantes.

A estrutura da CID-11 permite melhor especificação de apresentações clínicas através de extensões de código, facilitando documentação mais precisa de características como gravidade, presença de complicações específicas e estado de remissão.

A terminologia foi atualizada para refletir conhecimento científico contemporâneo sobre transtornos por uso de substâncias, abandonando termos potencialmente estigmatizantes e adotando linguagem mais neutra e clinicamente útil.

Impacto prático:

Profissionais precisam familiarizar-se com a nova estrutura de codificação para garantir documentação adequada. Sistemas de informação em saúde requerem atualização para acomodar a nova classificação. A transição pode temporariamente dificultar comparações com dados históricos codificados em CID-10, mas a maior precisão da CID-11 beneficiará pesquisa e planejamento de serviços a longo prazo.

A separação mais clara entre diferentes tipos de estimulantes permite melhor monitoramento epidemiológico de tendências específicas, como o aumento do uso de metanfetamina em determinadas regiões, facilitando respostas de saúde pública mais direcionadas.

9. Perguntas Frequentes

1. Como é feito o diagnóstico de transtornos por uso de estimulantes?

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em história detalhada e exame físico. A entrevista deve explorar padrão de uso, consequências e presença de critérios de dependência. Exames toxicológicos confirmam uso recente, mas não estabelecem o diagnóstico de transtorno por si só. Avaliação de complicações médicas e psiquiátricas complementa o diagnóstico. Não existe um único teste definitivo; o diagnóstico requer julgamento clínico integrado.

2. O tratamento está disponível em sistemas de saúde públicos?

A disponibilidade varia consideravelmente entre diferentes regiões e sistemas de saúde. Muitos sistemas públicos oferecem algum nível de tratamento, incluindo desintoxicação, aconselhamento e tratamento ambulatorial. Programas especializados em dependência química frequentemente incluem atendimento para estimulantes. Entretanto, a capacidade pode ser limitada, com listas de espera em algumas localidades. Tratamentos farmacológicos específicos são limitados, com a abordagem baseando-se principalmente em intervenções psicossociais.

3. Quanto tempo dura o tratamento?

A duração é altamente variável e individualizada. Desintoxicação aguda pode levar dias a semanas. Tratamento ambulatorial estruturado frequentemente dura 3-6 meses, mas muitos pacientes beneficiam-se de acompanhamento prolongado por 12-24 meses ou mais. Dependência de estimulantes é frequentemente uma condição crônica recidivante, requerendo manejo longitudinal similar a outras doenças crônicas. Alguns indivíduos necessitam suporte intermitente ou contínuo por anos.

4. Este código pode ser usado em atestados médicos?

A utilização em atestados médicos depende de regulamentações locais e considerações de confidencialidade. Em muitas jurisdições, atestados para justificar ausências do trabalho podem utilizar terminologia mais genérica como "tratamento médico" sem especificar o diagnóstico exato, protegendo a privacidade do paciente. Para propósitos de seguro ou benefícios por incapacidade, pode ser necessário fornecer o código específico, mas sempre respeitando consentimento do paciente e leis de proteção de dados.

5. Estimulantes prescritos para TDAH podem causar dependência?

Quando utilizados conforme prescrição médica, sob supervisão adequada e em doses terapêuticas, o risco de desenvolvimento de dependência é relativamente baixo. Entretanto, existe potencial de uso inadequado, especialmente se doses são aumentadas sem orientação médica, se a medicação é utilizada por vias não prescritas (como inalação) ou se é compartilhada com outros. Monitoramento regular é essencial para identificar sinais precoces de uso problemático.

6. Quais são as principais complicações médicas do uso de estimulantes?

Complicações cardiovasculares são particularmente preocupantes, incluindo hipertensão, arritmias, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, mesmo em indivíduos jovens. Complicações neurológicas incluem convulsões e danos cerebrais. Problemas dentários severos ("boca de metanfetamina") são comuns devido a vasoconstrição, bruxismo e negligência de higiene. Complicações psiquiátricas incluem psicose, depressão e ansiedade. Uso intravenoso adiciona riscos de infecções, incluindo HIV e hepatites.

7. É possível recuperação completa?

Muitos indivíduos alcançam recuperação sustentada com tratamento apropriado e suporte contínuo. A recuperação é um processo que envolve não apenas cessação do uso, mas também reconstrução de funcionamento em múltiplas áreas da vida. Alguns indivíduos experimentam recuperação completa sem sequelas significativas, enquanto outros podem ter complicações médicas ou cognitivas persistentes. Fatores que favorecem recuperação incluem início precoce do tratamento, suporte social adequado, tratamento de comorbidades e engajamento em programa estruturado.

8. Como diferenciar uso recreativo ocasional de transtorno por uso de estimulantes?

A diferenciação baseia-se na presença de consequências negativas e perda de controle. Uso recreativo ocasional, embora não isento de riscos, não necessariamente constitui transtorno. O diagnóstico requer padrão de uso que causa prejuízo significativo ou sofrimento, presença de critérios de dependência (tolerância, abstinência, compulsão) e persistência do uso apesar de consequências negativas. A frequência sozinha não define o transtorno; o impacto funcional e a perda de controle são elementos centrais.


Conclusão

O código CID-11 6C46 para transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona, representa ferramenta essencial para identificação, documentação e manejo adequado destas condições complexas. A codificação precisa facilita comunicação entre profissionais, permite monitoramento epidemiológico, auxilia no planejamento de recursos e garante que pacientes recebam tratamento apropriado. Compreender quando utilizar este código, diferenciando-o de outras condições relacionadas, é fundamental para prática clínica de qualidade e para enfrentar o desafio global representado pelos transtornos por uso de estimulantes.

Referências Externas

Este artigo foi elaborado com base em fontes científicas confiáveis:

  1. 🌍 WHO ICD-11 - Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona
  2. 🔬 PubMed Research on Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona
  3. 🌍 WHO Health Topics
  4. 📋 NICE Mental Health Guidelines
  5. 📊 Clinical Evidence: Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona
  6. 📋 Ministério da Saúde - Brasil
  7. 📊 Cochrane Systematic Reviews

Referências verificadas em 2026-02-03

Códigos Relacionados

Como Citar Este Artigo

Formato Vancouver (ABNT)

Administrador CID-11. Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona. IndexICD [Internet]. 2026-02-03 [citado 2026-03-29]. Disponível em:

Use esta citação em trabalhos acadêmicos, TCC, monografias e artigos científicos.

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