Transtornos devidos ao uso de cannabis

Transtornos Devidos ao Uso de Cannabis: Guia Completo de Codificação CID-11 1. Introdução Os transtornos devidos ao uso de cannabis representam um conjunto de condições clínicas resultantes do

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Transtornos Devidos ao Uso de Cannabis: Guia Completo de Codificação CID-11

1. Introdução

Os transtornos devidos ao uso de cannabis representam um conjunto de condições clínicas resultantes do consumo de preparações psicoativas derivadas da planta Cannabis sativa e suas variantes. Com a crescente legalização e descriminalização da cannabis em diversas jurisdições mundiais, observa-se um aumento significativo na prevalência desses transtornos, tornando essencial o conhecimento adequado sobre sua classificação e codificação.

A cannabis contém mais de 100 canabinoides diferentes, sendo o δ-9-tetrahidrocannabinol (THC) o principal componente psicoativo responsável pelos efeitos sobre o sistema nervoso central. Estes compostos interagem com receptores canabinoides endógenos, modulando a liberação de neurotransmissores e produzindo efeitos que variam desde euforia e relaxamento até prejuízos cognitivos e psicomotores significativos.

A importância clínica desses transtornos reside não apenas na sua crescente prevalência, mas também no impacto substancial sobre a saúde pública. Usuários podem desenvolver dependência, experimentar sintomas de abstinência e apresentar diversos transtornos mentais induzidos pela substância. A codificação correta utilizando o CID-11 é crítica para o planejamento terapêutico adequado, alocação de recursos em saúde, pesquisas epidemiológicas e comunicação efetiva entre profissionais de saúde. Além disso, a documentação precisa permite o monitoramento de tendências populacionais e a avaliação da eficácia de políticas públicas relacionadas ao uso de substâncias psicoativas.

2. Código CID-11 Correto

Código: 6C41

Descrição: Transtornos devidos ao uso de cannabis

Categoria pai: Transtornos decorrentes do uso de substâncias

Definição oficial: Transtornos decorrentes do uso de cannabis são caracterizados pelo padrão e consequências do uso de cannabis. Cannabis é o termo coletivo para uma gama de preparações psicoativas da planta Cannabis sativa, e espécies e híbridos relacionados. A cannabis contém canabinoides, uma classe de componentes químicos diversos que agem sobre receptores canabinoides endógenos que modulam a liberação de neurotransmissores no cérebro.

O principal canabinoide psicoativo é o δ-9-tetrahidrocannabinol (THC). A cannabis é tipicamente fumada sob a forma de flores ou folhas da planta marijuana, frequentemente misturada com tabaco. Existem também óleos de cannabis preparados dessas mesmas fontes, com preparações que variam consideravelmente em relação à potência de THC.

A cannabis tem predominantemente efeitos depressores sobre o sistema nervoso central e produz uma euforia característica que pode ser parte da apresentação clínica na intoxicação. A substância tem propriedades que produzem dependência, resultando em dependência de cannabis em algumas pessoas e abstinência quando o uso é reduzido ou interrompido. A cannabis está associada a uma gama de transtornos mentais induzidos.

3. Quando Usar Este Código

O código 6C41 deve ser aplicado em cenários clínicos específicos onde o uso de cannabis natural (derivada da planta) resulta em transtornos identificáveis. Abaixo estão situações práticas detalhadas:

Cenário 1: Dependência Estabelecida com Prejuízo Funcional Paciente de 28 anos apresenta uso diário de cannabis há 5 anos, fumando entre 3 a 5 cigarros de marijuana por dia. Relata múltiplas tentativas frustradas de cessar o uso, experimenta fissura intensa quando tenta parar e apresenta prejuízo no desempenho profissional, com faltas frequentes ao trabalho. O padrão de uso tornou-se prioritário em sua rotina, negligenciando outras atividades anteriormente prazerosas.

Cenário 2: Intoxicação Aguda Requerendo Atendimento Indivíduo chega ao serviço de emergência apresentando ansiedade severa, taquicardia, ideação paranoide e desorientação temporal após consumo de cannabis de alta potência. O exame revela conjuntivas hiperemiadas, boca seca, prejuízo na coordenação motora e alterações perceptivas. A intoxicação por cannabis está causando sofrimento clinicamente significativo.

Cenário 3: Síndrome de Abstinência Paciente em tratamento para dependência de cannabis, após 8 anos de uso regular, apresenta irritabilidade marcante, insônia severa, perda de apetite, inquietação, sudorese e tremores finos após 48 horas de cessação. Os sintomas são suficientemente graves para causar sofrimento significativo e interferir nas atividades diárias.

Cenário 4: Transtorno Psicótico Induzido Usuário crônico de cannabis desenvolve sintomas psicóticos incluindo alucinações auditivas e delírios persecutórios que surgem durante ou logo após o uso intenso da substância. Os sintomas excedem aqueles tipicamente associados à intoxicação simples e persistem por vários dias, requerendo intervenção psiquiátrica.

Cenário 5: Transtorno de Ansiedade Induzido Paciente apresenta ataques de pânico recorrentes e ansiedade generalizada que se desenvolveram temporalmente relacionados ao início do uso regular de cannabis. Os sintomas são suficientemente graves para justificar atenção clínica independente e não são melhor explicados por outro transtorno mental primário.

Cenário 6: Uso Nocivo com Consequências à Saúde Indivíduo com padrão de uso que resultou em danos à saúde física (bronquite crônica, tosse persistente) ou mental (episódios depressivos recorrentes), mas que ainda não preenche critérios completos para dependência. O uso continua apesar do conhecimento dos danos causados.

4. Quando NÃO Usar Este Código

É fundamental distinguir situações onde o código 6C41 não é apropriado:

Uso de Canabinoides Sintéticos: Se o paciente utiliza substâncias sintéticas como "spice" ou "K2" (canabinoides sintéticos), o código correto é 6C42 - Transtornos devidos ao uso de canabinoides sintéticos. Estas substâncias, embora atuem em receptores canabinoides similares, possuem perfil de efeitos, potência e riscos distintos da cannabis natural.

Uso Perigoso sem Transtorno Estabelecido: Quando há padrão de uso que aumenta substancialmente o risco de consequências prejudiciais (como dirigir sob efeito), mas ainda não resultou em transtorno diagnosticável, deve-se utilizar o código para uso perigoso de cannabis. O uso perigoso caracteriza-se pelo risco potencial, não pela presença de sintomas de dependência ou outros transtornos.

Uso Medicinal Supervisionado: Pacientes utilizando preparações de cannabis ou canabinoides sob prescrição e supervisão médica adequada, sem desenvolver padrão problemático de uso, não devem receber este código. O uso terapêutico controlado não constitui transtorno.

Experimentação Ocasional sem Consequências: Uso esporádico, experimental ou recreacional que não resulta em prejuízo funcional, dependência ou outros transtornos não justifica a codificação. A mera exposição à substância, sem consequências clínicas significativas, não constitui transtorno.

Transtornos Mentais Primários: Quando sintomas psiquiátricos existem independentemente do uso de cannabis ou claramente precedem o início do uso, o diagnóstico primário deve ser o transtorno mental específico, podendo o uso de cannabis ser codificado separadamente apenas se constituir problema clínico adicional.

5. Passo a Passo da Codificação

Passo 1: Avaliar Critérios Diagnósticos

A confirmação diagnóstica requer avaliação sistemática e abrangente. Inicie com história detalhada do padrão de uso: frequência, quantidade, via de administração, duração do uso, tentativas de cessação e contextos de uso. Investigue a presença de sintomas de dependência, incluindo tolerância (necessidade de quantidades progressivamente maiores), abstinência, perda de controle, tempo excessivo dedicado à obtenção e uso, e continuação apesar de consequências negativas.

Utilize instrumentos validados como o Cannabis Use Disorder Identification Test (CUDIT) ou entrevistas estruturadas para avaliar critérios diagnósticos. Examine o prejuízo funcional em áreas vitais: ocupacional, acadêmica, social e familiar. Documente consequências à saúde física e mental. Considere exames toxicológicos quando apropriado, embora o diagnóstico seja fundamentalmente clínico.

Avalie também a presença de comorbidades psiquiátricas e uso concomitante de outras substâncias, pois são situações frequentes que impactam o tratamento e prognóstico.

Passo 2: Verificar Especificadores

O CID-11 permite especificações importantes que refinam o diagnóstico. Determine o padrão temporal: episódio atual, remissão precoce (1-12 meses sem critérios) ou remissão sustentada (mais de 12 meses). Identifique qual manifestação específica está presente: episódio único de intoxicação, uso nocivo, dependência, abstinência ou transtorno mental induzido.

Para dependência, avalie a gravidade considerando o número de critérios preenchidos e o grau de prejuízo funcional. Para transtornos mentais induzidos, especifique o tipo: psicótico, ansioso, depressivo ou outro. Documente características de curso, como padrão contínuo versus intermitente.

Considere também especificadores contextuais relevantes, como uso em ambiente controlado (institucional) versus não controlado.

Passo 3: Diferenciar de Outros Códigos

6C40 - Transtornos devidos ao uso de álcool: A diferença fundamental reside na substância utilizada. Embora ambos possam apresentar padrões semelhantes de dependência e intoxicação, os efeitos farmacológicos são distintos. Cannabis produz euforia característica, alterações perceptivas, conjuntivas hiperemiadas e prejuízo psicomotor específico, enquanto álcool causa desinibição, incoordenação motora e pode levar a intoxicação potencialmente fatal. A abstinência de cannabis é geralmente mais branda que a abstinência alcoólica, que pode incluir convulsões e delirium.

6C42 - Transtornos devidos ao uso de canabinoides sintéticos: Esta categoria aplica-se especificamente a substâncias sintéticas que imitam efeitos canabinoides mas possuem estrutura química diferente. Canabinoides sintéticos frequentemente apresentam potência muito maior, efeitos mais imprevisíveis e riscos de toxicidade aguda mais graves, incluindo convulsões, rabdomiólise e eventos cardiovasculares severos, raramente vistos com cannabis natural.

6C43 - Transtornos devidos ao uso de opioides: Opioides produzem analgesia potente, sedação profunda, miose pupilar (versus midríase ou olhos vermelhos na cannabis) e risco significativo de depressão respiratória fatal. A dependência de opioides geralmente é mais severa, com abstinência fisicamente mais intensa e maior risco de overdose fatal, características distintas dos transtornos por cannabis.

Passo 4: Documentação Necessária

Documente meticulosamente os seguintes elementos:

Checklist Obrigatório:

  • Substância específica utilizada (tipo de preparação de cannabis)
  • Padrão de uso: frequência, quantidade, duração, via de administração
  • Critérios diagnósticos específicos preenchidos
  • Prejuízo funcional em diferentes áreas da vida
  • Tentativas prévias de cessação e seus resultados
  • Sintomas de abstinência experienciados (se aplicável)
  • Comorbidades médicas e psiquiátricas
  • Uso concomitante de outras substâncias
  • Consequências sociais, ocupacionais e legais
  • Resultados de exames toxicológicos (quando realizados)
  • Avaliações com instrumentos padronizados
  • Plano terapêutico proposto

Registre a justificativa clara para o código escolhido, diferenciando de diagnósticos alternativos considerados. Documente o contexto cultural e social quando relevante para o entendimento do caso.

6. Exemplo Prático Completo

Caso Clínico

Apresentação Inicial: Paciente de 32 anos, profissional de tecnologia, procura atendimento ambulatorial por solicitação familiar. Relata uso de cannabis iniciado aos 19 anos, recreacionalmente em contextos sociais, progredindo gradualmente para uso diário há aproximadamente 6 anos. Atualmente fuma cannabis 4-6 vezes ao dia, iniciando pela manhã antes do trabalho.

Nos últimos 2 anos, o paciente nota que precisa aumentar a quantidade consumida para obter os mesmos efeitos desejados de relaxamento. Realizou três tentativas de cessação no último ano, a mais longa durando 10 dias, todas interrompidas por fissura intensa, irritabilidade marcante e insônia severa. Descreve que o uso tornou-se "automático", consumindo mesmo quando planeja não fazê-lo.

Avaliação Realizada: Durante a entrevista, o paciente demonstra insight parcial sobre seu problema. Relata prejuízo no desempenho profissional, com dificuldades de concentração e memória recente, resultando em advertências no trabalho. Relacionamentos familiares deterioraram-se, com conflitos frequentes relacionados ao uso. Abandonou hobbies anteriormente prazerosos (prática esportiva, tocar instrumento musical) para dedicar tempo ao uso.

Ao exame mental: consciente, orientado, discurso coerente mas com lentificação do pensamento. Humor eutímico, mas relata episódios frequentes de ansiedade e irritabilidade quando não pode usar cannabis. Nega sintomas psicóticos. Exame físico revela tosse crônica e conjuntivas cronicamente hiperemiadas.

Aplicação do CUDIT revela pontuação indicativa de dependência grave. Nega uso problemático de outras substâncias, consumo ocasional de álcool socialmente. História familiar positiva para transtornos por uso de substâncias (pai com dependência de álcool).

Raciocínio Diagnóstico: O paciente preenche múltiplos critérios para dependência de cannabis: tolerância evidente, sintomas de abstinência ao tentar parar, perda de controle sobre o uso, tempo significativo dedicado ao uso, continuação apesar de consequências negativas (problemas ocupacionais e familiares), e redução de atividades importantes. O prejuízo funcional é substancial e clinicamente significativo.

Não há evidência de uso de canabinoides sintéticos, apenas cannabis natural. Os sintomas não são melhor explicados por outro transtorno mental primário, embora ansiedade e irritabilidade estejam presentes, parecem secundárias ao padrão de uso e abstinência.

Justificativa da Codificação: O código 6C41 - Transtornos devidos ao uso de cannabis é apropriado, especificamente com especificador para dependência de cannabis, padrão contínuo, gravidade moderada a grave. A escolha baseia-se na substância específica (cannabis natural, não sintética), presença de múltiplos critérios de dependência, prejuízo funcional significativo e ausência de características que indicariam códigos alternativos.

Codificação Passo a Passo:

  1. Confirmação da substância: cannabis natural (flores fumadas)
  2. Identificação do transtorno: dependência estabelecida
  3. Exclusão de alternativas: não é canabinoide sintético (6C42), não é apenas uso perigoso
  4. Especificação: dependência, padrão contínuo, uso atual
  5. Código final: 6C41 com especificadores apropriados

Códigos Complementares:

  • Tosse crônica relacionada ao fumo pode justificar código adicional de sistema respiratório
  • Se desenvolvesse transtorno de ansiedade induzido mais claramente definido, poderia ser codificado adicionalmente

7. Códigos Relacionados e Diferenciação

Dentro da Mesma Categoria

6C40: Transtornos devidos ao uso de álcool

Quando usar vs. 6C41: Utilize 6C40 quando a substância problemática primária for álcool, não cannabis. Pacientes podem usar ambas substâncias, situação que requer codificação múltipla se ambos os padrões de uso atendem critérios para transtornos.

Diferença principal: A substância psicoativa e seus efeitos característicos. Álcool produz desinibição comportamental, incoordenação motora grosseira, fala arrastada e pode causar intoxicação fatal. A abstinência alcoólica é potencialmente grave, com risco de convulsões e delirium tremens. Cannabis produz euforia, alterações perceptivas sutis, olhos vermelhos e prejuízo cognitivo específico, com abstinência geralmente mais branda.

6C42: Transtornos devidos ao uso de canabinoides sintéticos

Quando usar vs. 6C41: Use 6C42 especificamente quando o paciente utiliza canabinoides sintéticos (substâncias químicas sintéticas que imitam THC mas com estrutura molecular diferente), comercializados como "incenso", "spice", "K2" ou outras denominações.

Diferença principal: Canabinoides sintéticos são substâncias completamente fabricadas em laboratório, não derivadas da planta cannabis. Apresentam potência frequentemente muito maior, efeitos mais imprevisíveis e perfil de toxicidade distinto, incluindo risco aumentado de eventos cardiovasculares agudos, convulsões e psicose severa. O perfil de risco é substancialmente diferente da cannabis natural.

6C43: Transtornos devidos ao uso de opioides

Quando usar vs. 6C41: Aplique 6C43 quando a substância problemática pertence à classe dos opioides (morfina, heroína, codeína, oxicodona, fentanil, etc.), não cannabis.

Diferença principal: Opioides são depressores do sistema nervoso central com mecanismo de ação completamente diferente (receptores opioides mu, kappa e delta versus receptores canabinoides CB1 e CB2). Produzem analgesia potente, sedação profunda, miose pupilar e risco significativo de depressão respiratória fatal. A dependência de opioides é geralmente mais severa, com abstinência fisicamente intensa (dores musculares, vômitos, diarreia) e maior risco de overdose letal.

Diagnósticos Diferenciais

Transtornos Psicóticos Primários: Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos podem coexistir com uso de cannabis ou serem confundidos com psicose induzida por cannabis. A distinção baseia-se na temporalidade (sintomas psicóticos persistem significativamente além da intoxicação e abstinência?), história prévia (sintomas existiam antes do uso?) e padrão de sintomas.

Transtornos de Ansiedade Primários: Ansiedade pode ser sintoma de intoxicação, abstinência ou transtorno induzido por cannabis, mas também pode ser transtorno primário. Avalie se ansiedade precede o uso de cannabis, persiste durante períodos de abstinência prolongada e apresenta características não típicas de efeitos canabinoides.

Transtorno de Déficit de Atenção: Prejuízos cognitivos e de atenção são comuns no uso crônico de cannabis, mas devem ser diferenciados de TDAH primário através de história de desenvolvimento, presença de sintomas na infância e padrão de prejuízos.

8. Diferenças com CID-10

Na CID-10, transtornos relacionados à cannabis eram codificados na categoria F12, com subdivisões como F12.0 (intoxicação aguda), F12.1 (uso nocivo), F12.2 (síndrome de dependência), F12.3 (síndrome de abstinência), entre outros.

A CID-11 representa mudança paradigmática significativa. O código 6C41 unifica todos os transtornos devidos ao uso de cannabis sob uma categoria principal, com especificadores para diferenciar manifestações específicas, ao invés de códigos separados para cada apresentação. Esta abordagem reflete melhor a compreensão contemporânea de que estas condições representam espectro relacionado de um transtorno por uso de substância.

Principais mudanças incluem: reconhecimento mais explícito da síndrome de abstinência de cannabis (anteriormente controversa), critérios diagnósticos revisados para dependência baseados em evidências atualizadas, e distinção clara entre cannabis natural e canabinoides sintéticos (que na CID-10 eram frequentemente agrupados).

O impacto prático dessas mudanças inclui maior flexibilidade na codificação, melhor captura da complexidade clínica, e facilitação de pesquisas epidemiológicas e comparações internacionais. Profissionais devem familiarizar-se com a estrutura hierárquica da CID-11 e o uso apropriado de especificadores para documentação completa.

9. Perguntas Frequentes

Como é feito o diagnóstico de transtornos devidos ao uso de cannabis?

O diagnóstico é fundamentalmente clínico, baseado em avaliação abrangente por profissional qualificado. Inicia-se com entrevista detalhada sobre padrão de uso, história de consumo, tentativas de cessação e consequências. Exame mental e físico são essenciais. Instrumentos padronizados como CUDIT, ASSIST ou entrevistas estruturadas auxiliam na avaliação sistemática. Exames toxicológicos podem confirmar uso recente mas não estabelecem diagnóstico de transtorno, pois uso não equivale automaticamente a transtorno. A presença de critérios específicos (perda de controle, tolerância, abstinência, prejuízo funcional) e sofrimento clinicamente significativo são necessários para diagnóstico formal.

O tratamento está disponível em sistemas de saúde públicos?

A disponibilidade de tratamento varia consideravelmente entre diferentes regiões e sistemas de saúde. Muitos sistemas públicos de saúde oferecem algum nível de tratamento para transtornos por uso de substâncias, incluindo cannabis, tipicamente através de serviços de saúde mental ou programas especializados em dependência química. O tratamento pode incluir intervenções psicossociais (terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional, manejo de contingências), grupos de apoio e, em alguns casos, medicações para sintomas específicos. A extensão e qualidade dos serviços variam significativamente, com alguns sistemas oferecendo programas abrangentes e outros com recursos limitados.

Quanto tempo dura o tratamento?

A duração do tratamento é altamente individualizada, dependendo da gravidade da dependência, presença de comorbidades, resposta ao tratamento e circunstâncias pessoais. Intervenções breves podem ser suficientes para casos leves, durando algumas semanas. Dependência moderada a grave tipicamente requer tratamento mais prolongado, frequentemente 3-6 meses de intervenção intensiva, seguido por acompanhamento de manutenção que pode estender-se por anos. A recuperação é processo contínuo, e muitos indivíduos beneficiam-se de suporte de longo prazo para prevenir recaídas. Não existe duração "padrão" universal; o tratamento deve ser ajustado às necessidades específicas de cada paciente.

Este código pode ser usado em atestados médicos?

A utilização de códigos diagnósticos em atestados médicos requer consideração cuidadosa de questões éticas e legais. Em muitas jurisdições, atestados para justificar ausências ocupacionais não requerem especificação diagnóstica detalhada, sendo suficiente indicar necessidade de afastamento por razões médicas. Quando especificação é necessária, o uso do código CID deve respeitar confidencialidade e potenciais consequências para o paciente, incluindo estigma e implicações ocupacionais ou legais. Profissionais devem balancear necessidade de documentação adequada com proteção da privacidade do paciente, utilizando descrições mais gerais quando apropriado.

Cannabis medicinal pode causar dependência?

Sim, mesmo uso medicinal supervisionado de cannabis ou preparações canabinoides pode resultar em dependência em alguns indivíduos, embora o risco seja geralmente menor quando uso é apropriadamente prescrito e monitorado. Fatores que influenciam risco incluem dose, potência de THC, duração do uso, vulnerabilidade individual e histórico pessoal ou familiar de transtornos por uso de substâncias. Uso medicinal adequadamente supervisionado minimiza mas não elimina completamente este risco. Pacientes em uso medicinal devem ser monitorados para sinais de desenvolvimento de padrão problemático.

Quais são os sintomas de abstinência de cannabis?

A síndrome de abstinência de cannabis, embora frequentemente mais branda que abstinência de álcool ou opioides, é clinicamente significativa. Sintomas comuns incluem irritabilidade e raiva, ansiedade e nervosismo, dificuldades para dormir (insônia, sonhos vívidos), diminuição do apetite e perda de peso, inquietação, humor deprimido, e sintomas físicos como desconforto abdominal, tremores, sudorese e febre. Sintomas tipicamente iniciam 24-72 horas após cessação, atingem pico na primeira semana e podem persistir por várias semanas. A gravidade correlaciona-se com intensidade e duração do uso prévio.

É possível ter transtorno por uso de cannabis e outra substância simultaneamente?

Absolutamente. Comorbidade de múltiplos transtornos por uso de substâncias é comum. Indivíduos podem simultaneamente preencher critérios para transtornos devidos ao uso de cannabis e álcool, por exemplo, ou cannabis e estimulantes. Cada transtorno deve ser codificado separadamente quando critérios diagnósticos são preenchidos. Uso concomitante de múltiplas substâncias complica o quadro clínico, tratamento e prognóstico, frequentemente requerendo abordagem terapêutica mais intensiva e especializada. Avaliação cuidadosa de todas as substâncias utilizadas é essencial.

Como diferenciar uso recreacional de transtorno?

A distinção fundamental reside na presença ou ausência de consequências negativas significativas e perda de controle. Uso recreacional ocasional, sem desenvolvimento de tolerância, sem sintomas de abstinência, sem tentativas frustradas de controlar o uso, e sem prejuízo funcional em áreas importantes da vida não constitui transtorno. Transtorno caracteriza-se por padrão problemático com consequências adversas persistentes, perda de controle sobre o uso, priorização do uso sobre outras atividades e continuação apesar de problemas causados. A frequência de uso sozinha não define transtorno; o impacto funcional e presença de critérios diagnósticos específicos são determinantes.


Conclusão: A codificação adequada de transtornos devidos ao uso de cannabis utilizando o código 6C41 do CID-11 requer compreensão abrangente dos critérios diagnósticos, diferenciação cuidadosa de condições relacionadas e documentação meticulosa. Este conhecimento é essencial para prática clínica de qualidade, comunicação efetiva entre profissionais e alocação apropriada de recursos terapêuticos, contribuindo para melhores desfechos para pacientes afetados por estes transtornos.

Referências Externas

Este artigo foi elaborado com base em fontes científicas confiáveis:

  1. 🌍 WHO ICD-11 - Transtornos devidos ao uso de cannabis
  2. 🔬 PubMed Research on Transtornos devidos ao uso de cannabis
  3. 🌍 WHO Health Topics
  4. 📋 NICE Mental Health Guidelines
  5. 📊 Clinical Evidence: Transtornos devidos ao uso de cannabis
  6. 📋 Ministério da Saúde - Brasil
  7. 📊 Cochrane Systematic Reviews

Referências verificadas em 2026-02-03

Codes Associés

Comment Citer Cet Article

Format Vancouver

Administrador CID-11. Transtornos devidos ao uso de cannabis. IndexICD [Internet]. 2026-02-03 [citado 2026-03-29]. Disponível em:

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